Sim, sou TEA (Transtorno do Espectro Autista) nível 1 e fui diagnosticado aos 47 anos. Isso não quer dizer que “virei um autista” assim, do nada. Eu simplesmente convivi com o autismo durante todo este tempo sem pensar nesta possibilidade.
Inicialmente a suspeita veio depois de ter o diagnóstico de uma das minhas filhas (11 anos), também com TEA nível 1, e a da outra filha (15 anos) com altas habilidades. Adiei para fazer os testes, e agora em 2024 resolvi fazê-los, e bem. Como já mencionei, sou autista com nível de suporte 1, comumente chamado de “autismo leve”.
Já parou pra pensar que você pode ser autista e nunca suspeitou disso? Pois é, isso acontece mais do que imaginamos, principalmente com quem tem o bendito do “autismo leve”. Nesse caso, as dificuldades de comunicação e os jeitos diferentes de agir podem passar desapercebido como se fossem apenas “manias” ou parte da sua personalidade. E na área de tecnologia, onde eu e muitos de nós estamos incluídos, onde muitas vezes gostamos apenas de ficar na nossa, somos meio introspectivos, isso acaba passando em comportamentos muitas vezes vistos como “normais” (ao menos para o autista).
Como o “autismo leve” pode se mostrar no ambiente de trabalho?
- Muitas vezes, conseguimos nos concentrar MUITO em uma coisa só, tipo um assunto específico! Isso é ótimo para trabalhos que exigem atenção total aos detalhes, mas pode ser um problema quando precisamos mudar de tarefa ou ter que pensar em várias coisas ao mesmo tempo.
- Geralmente falamos o que pensamos, sem rodeios. Isso pode ser visto como falta de tato em algumas situações, mas a real intenção não é ser grosso, é só ser sincero mesmo.
- Alguns de nós possuímos uma sensibilidade maior nos sentidos. Barulhos, luzes fortes, cheiros e texturas podem incomodar muito e atrapalhar a concentração no trabalho. Isso pode variar bastante entre aqueles que estão no espectro, e também de acordo com a hora do dia.
- A rotina é como um “mantra” que acalma, geralmente preferimos seguir uma rotina e podemos ter dificuldade em lidar com situações novas no trabalho.
- Interagir e socializar com outras pessoas pode ser bem cansativo para todos. Muitas reuniões e eventos sociais podem gerar uma baita ansiedade e dificuldade em entender as entrelinhas das conversas.
- Pessoas no espectro, quando adultas, descobrem formas de lidar com várias dessas situações mencionadas anteriormente, aprendendo a lidar com as situações desconfortáveis. Mas isso não quer dizer que necessariamente é um “problema solucionado” para o nós.
E se eu não souber que sou autista?
Como mencionei, descobri que sou autista aos 47 anos. Um autista com suporte nível 1 muitas vezes é visto como uma pessoa “normal”, mas quando estamos com outros grupos de pessoas nos sentimos deslocados e até frustrados sem entender o porquê de algumas situações. Isso pode afetar a autoestima, a saúde mental, até o desempenho dos estudos e/ou profissional.
Busque uma ajuda profissional para ajudar com o diagnóstico adequado.
Mas e aí, qual a “vantagem” de saber que sou autista?
Descobrir que é autista, mesmo já adulto, abre uma janela! Você pode ter acesso a recursos e suporte para se adaptar melhor no trabalho e ter mais qualidade de vida.
- Sabendo das suas necessidades, podemos pedir para mudar algumas coisas no seu ambiente de trabalho, tipo um lugar mais tranquilo pra trabalhar, usar fones de ouvido pra diminuir o barulho ou ter horários mais flexíveis.
- Com terapia e acompanhamento profissional, podemos desenvolver habilidades sociais, como se comunicar de forma mais clara e assertiva, entender melhor as pessoas e lidar com a ansiedade em situações específicas que temos alguma dificuldade.
- Há grupos de apoio e comunidades online onde podemos conhecer outras pessoas autistas, trocar ideias e se sentir acolhido.
- Entender que “ser autista” é só um jeito diferente de ser, e não uma doença, é fundamental nos aceitarmos, nos sentirmos bem conosco e buscar o apoio adequado quando necessário.
Descobrir que somos autista, mesmo que seja “autismo leve”, nos ajuda a se entender melhor, buscar ajuda e ter uma vida profissional mais tranquila e de acordo com quem realmente somos. Não há um sintoma específico ou um exame clinico e determinístico para detectar um autismo. É necessário estar atento aos sinais e caso tenha alguma suspeita, procure um profissional!
Não conheço outros autistas (diagnosticados) na minha área de atuação, mas conheço vários com outras neurodiversidades (como TDAH, altas habilidades), principalmente dentro da áreas de tecnologia. Deve ser até algum tipo de aptidão “natural” que a própria neurodiversidade proporciona. 🤔
Enfim… Desejo uma boa jornada para todos!
